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sábado, 11 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A crise da esquerda e a mula sem cabeça

Economia| 26/01/2012 | Copyleft 

A crise da esquerda e a mula sem cabeça

Em debate promovido pela Carta Maior, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo advertiu que se engana quem pensa que a crise é apenas financeira. “O sistema financeiro virou uma mula sem cabeça”, disse. Se a crise é a do capitalismo realmente existente, e todos os participantes do debate concordaram a respeito, a fragmentação, a perda de acúmulo de consciência e o afastamento da juventude da luta pelo poder configuram um quadro preocupante: a crise da esquerda dificulta a ideia mesma de “rumo”, no século XXI.



Porto Alegre - O Fórum Social Temático 2012 se ocupa, “apenas”, de dois temas: a crise do capitalismo e a destruição do planeta. Sob o pretexto de preparar a Rio + 20, muitos que aqui estão parecem comprometidos com uma crítica radical do que chamam de “capitalismo verde” ou “econeoliberalismo”. Nessa crítica, além dos balanços e das lutas contra barragens, sobressai a atualidade do embate político e teórico entre Reforma e Revolução. O economista da Unicamp e Facamp, Luiz Gonzaga Belluzzo, disse quarta-feira, numa entrevista coletiva na Carta Maior, que esta dicotomia deveria ser revisitada (no seu caso, em defesa de um reformismo radical). 

Mais do que um debate sobre a organização dos trabalhadores frente à história, no entanto, Belluzo propõe a retomada do enfrentamento de dois dos aspectos mais fundamentais analisados por Marx: a importância histórica do mercado e o privilégio do presente.

Dentre os participantes das centenas de atividades agendadas (fora as canceladas) neste Fórum, certamente o pessoal que faz tijolos com garrafas pet usadas pode estar presente. Como se sabe, tijolos feitos com garrafas pet são considerados de alta resistência e grande capacidade de impermeabilização. De baixo custo e fácil manuseio, torna-se um candidato mais do que habilitado a entrar no mercado da construção civil. Talvez se possa resumir um dos problemas e dificuldades que frequentam os debates neste Fórum como sendo o do significado de uma empresa de tijolos de garrafas pet usadas.

Por exemplo, seja como cooperativa ou como empresa (pequena, média, tanto faz), poderia a Cia Garrafas Pet Recicladas Construção Ltda ser contratada pela Coca Cola, num consórcio liderado pela Odebrecht e pelo BNDES, para a construção de uma grande barragem na fronteira da Amazônia com a Venezuela?

Uma parte dos ativistas que estão aqui dirão sem tergiversar que uma empresa dessas não pode ser outra coisa que um exemplo da ameaça do “capitalismo verde”. Outros, mais silenciosos e pragmáticos, defenderão que a estrutura cooperativada e a troca da Coca-Cola, quem sabe pela Ambev, seriam não apenas fatores de legitimação do empreendimento imaginado, como um elemento de envergadura geopolítica para o Brasil. Esta hipótese experimentada não pretende ser usada como provocação, apenas. O que se pretende, trazendo-a à baila é enfrentar um problema mais difícil do que as recusas e escolhas “verdes” e “carbon free” dão a ver, nas revoltas anti-barragens ou a favor do “mercado ecológico”.

No debate da manhã de quinta-feira, promovido pela Carta Maior, nenhum dos participantes falou da crise ambiental. Não se sabe se algum dos debatedores tem conhecimento dos empreendimentos em tijolos de garrafas pet e qual a sua opinião sobre a construção de Belo Monte. No entanto, se prestarmos atenção ao que foi dito e debatido, talvez se torne possível, se não evitar Belo Monte, ao menos não sucumbir às ameaças que assombram a defesa do meio ambiente.



O marco da atualidade do debate sobre Reforma e Revolução nos termos propostos por Luiz Gonzaga Belluzzo talvez ajude a enfrentar a grave crise ambiental: trata-se de revisitar o conceito de mercado e de retomar as lições marxistas sobre a transformação do capitalismo a partir dele mesmo, atualmente. Talvez assim o mercado global (porque, como se sabe, não há outro) deixe de ter a atual configuração de uma “mula sem cabeça”, como diagnosticou Belluzo, e passe a ser algo menos estúpido (com todo respeito às mulas) e mais conscientemente dirigido.

“O sistema financeiro virou uma mula sem cabeça” mas se engana, alerta o professor, quem pensa que a crise é apenas financeira. Se a crise é a do capitalismo realmente existente, e parece afinal que todos os participantes concordaram a respeito, a fragmentação, a perda de acúmulo de consciência e o afastamento da juventude da luta pelo poder configuram um quadro preocupante: a crise da esquerda dificulta a ideia mesma de “rumo”, no século XXI.

“Não existe equilíbrio na crise”




Mario Burkun, economista argentino da Universidade de Buenos Aires, chamou a atenção para o que se tem de pensar a respeito da crise. Levando em conta o que chamou de mudança na relação espaço-temporal da produção capitalista, que se apartou do aspecto social em seu metabolismo, e também a consequente autonomia quase total do sistema financeiro sobre o produtivo, Burkún chamou a atenção para a forte dissociação entre as oscilações da crise. Nós, a América Latina, estamos, disse o economista argentino, no “pólo positivo” do atual estágio da crise. Além de não se ter hoje garantias de que essa posição não mudará, deve-se reconhecer que “o neoliberalismo segue sendo a ideologia dominante”, de modo que é preciso se começar a pensar a partir de um outro lugar, que não o dos governos voltados ao controle e gestão do sistema. “Temos de pensar em outras coisas: 1) não existe equilíbrio na crise; 2) não há solução de estabilidade”. Para Burkún, a coincidência do tratamento do Estado entre esquerda e direita configuram o problema político fundamental.

Avaliando as dificuldades de refazimento do país, depois da grave crise de 2001, o professor argentino ponderou sobre o que vem pela frente. “Depois da crise, tivemos muito trabalho para refazer as coisas, com uma juventude sem confiança e com um quadro partidário fragmentado”, ponderou. Hoje, com a implementação de políticas sociais voltadas aos setores mais fragilizados da sociedade, passados já alguns anos do início da recuperação econômica argentina, o problema assume outra face: “As medidas de assistência dos mais despossuídos via políticas basicamente copiadas do Brasil dinamizaram a economia, tiraram os de baixo da miséria, melhoraram as suas vidas, mas não houve acompanhamento dos níveis de consciência”.

Para se ter uma ideia mais ou menos clara do que a expressão “níveis de consciência” quer dizer talvez a intervenção do diretor do Le Monde Diplomatique seja esclarecedora. Ignacio Ramonet começou a sua fala com uma retificação claramente europeia do título do painel: “eu creio que o título não é este, da crise do neoliberalismo, mas a crise da esquerda e a neo-energia do neoliberalismo. Porque esta é a realidade que estamos enfrentando. Vou falar mais da Europa. Mas a ideia que temos na Europa é que efetivamente houve a ilusão de que o neoliberalismo entrava em crise, quando o Lehman Brothers caiu, em 15 de setembro de 2008. Quando este banco quebrou, todo mundo pensava que o ciclo neoliberal tinha terminado. Pensava-se que tinham chegado ao fim os 30 anos de ciclo de neoliberalismo”, lembrou Ramonet.

Falaram, inclusive Sarkozy (quer dizer, não somente a esquerda), na necessidade de regulação dos mercados e no regresso da política, exatamente para se salvar o capitalismo.

“Assim”, observou, “os Estados se endividaram para bancar os mercados e lançaram políticas de empregos subvencionados. E, em 3 anos, os mercados se recompuseram e se voltaram de novo contra os Estados. Nas atuais reuniões de cúpulas já não se fala mais do regresso do Estado, na necessidade de políticas neokeynesianas e os mercados voltam a se impor sobre os Estados”. O fato de os estados e da própria União Europeia não terem reagido com relativa autonomia ou com decisões mais altivas, simplesmente, quando da eclosão da grande crise, estabeleceu as condições para a intervenção do FMI na região, hoje. Mas, questiona Ramonet, “como é que a União Europeia, que é a primeira potência comercial do mundo, que tem alguns dos países mais importantes do mundo, como é possível que o Banco Central Europeu necessite da ajuda do FMI? Tecnicamente, não precisa. Porque tem dinheiro e reserva internacional. Necessita para impor políticas de ajuste, que o FMI sabe aplicar com mais controle. O recurso ao FMI é político, para que ele traga o seu método de intimidar aos países europeus”, denunciou.

A crise é da esquerda, avalia o jornalista francês, não somente porque o neoliberalismo segue triunfante, mas porque foi a própria esquerda, ou soi disant esquerda (a atual socialdemocracia europeia) que viabilizou essa submissão aos ditames da finança. O saldo dessa interferência “reabilitada” pela injeção de recursos e garantias estatais (na verdade, hipotecando e executando direitos sociais) é a queda de 8 governos desde que estourou a crise, em 2008 (Portugal, Irlanda, Dinamarca, Eslováquia, Grécia, Itália e Espanha) e o avanço da extrema direita, a mais regressiva, racista e irracional.

“No caso da Grécia e da Itália, o mercado impôs membros para os governos. Um fenômeno de golpe de estado financeiro. E não houve nenhuma reação da esquerda do governo. Só reação da população, nas ruas. Por um lado, a consequência é o avanço da extrema direita (antissemita, racista), que está no governo da Grécia e, por outra parte, um afastamento da política por parte da sociedade, que passa a rechaçar a política. Do Chile a Israel, passando pelos EUA, Londres e em muitos lugares na AL. Ou seja, temos uma crise em que o único que está se portando bem é o neoliberalismo, enquanto a política, a democracia e a sociedade estão padecendo de uma crise da qual não sabemos como sair”, constatou Ramonet

A intervenção do professor Belluzzo voltou-se a alguns dos temas clássicos da economia política e retomou o que já tinha observado na coletiva de quarta (25). “Vou me concentrar no tema das alternativas das esquerdas. Ontem eu disse na coletiva que os governos, ao socorrerem os bancos, nada mais fizeram do que cumprir os seus desígnios, por conta do caráter coletivo da gestão capitalista que é exercido por essas instituições. Eles são os gestores do crédito. Agora, há mesmo uma crise da finança?”, questiona, para traçar um pequeno histórico do desmonte do estado do padrão ouro do pós guerra, em que a estrutura fiscal era basicamente progressiva e que supunha um alto padrão de regulamentação dos mercados.

“Quando falamos da crise da finança, estamos escondendo alguma coisa”.

Para Belluzzo, a crise é da forma de acumulação do capital. As empresas produtivas também foram para a finança, lembra o economista, referindo os privilégios dos acionistas no estabelecimento dos rumos dos investimentos e demais decisões empresariais dentro do sistema produtivo. Um dos maiores problemas, segundo o economista, é que que o neoliberalismo requereu uma “tremenda regressividade fiscal”, o que é um fator de concentração e portanto de desigualdade. 

“Nós perdemos essa batalha em meados dos anos 70. O governo Miterrand tentou, em 82, e foi obrigado a voltar para trás. Nós perdemos isso nos anos 70 (porque eu me incluo nessa corrente que acha que a economia deve aos cidadãos uma vida boa e decente). E nós devemos começar a discutir qual é o ponto central dessa maquinaria, que é o sistema financeiro, que é (tem muita gente que não leu o Livro III do Caítal, então não sabe disso), que é o capital par excelence”.

Para Belluzo, a sua opinião é a de Marx: o socialismo vai nascer da luta política transformadora do capitalismo. “Não vamos reinventar a sociedade, vamos partir do que o capitalismo inventou. Isso o Lenin também disse. Eu tô dizendo uma banalidade. Quando Lênin viu o sistema de crédito do capitalismo, disse: taí uma grande novidade. Não devemos confundir o mercado com o capitalismo. Temos de controlar os elementos que produzem o mercado, temos de fazer com que as relações mercantis funcionem para o bem estar da comunidade”, concluiu.

A seguir, na segunda parte do texto, vamos acompanhar a intervenção do Alto Representante para o Mercosul, Samuel Pinheiro Guimarães, bem como os debates que se seguiram às falas dos convidados. Talvez assim a crise da esquerda frente aos desafios impostos pela indústria possível dos tijolos de garrafas pet usadas venha a ser tratada em perspectiva. 

Belluzzo citou Adorno, no debate que se seguiu, a propósito do que Burkún chamou de “ganhos de consciência”, acima: “não há liberdade sem compreensão”. O embate sobre Reforma e Revolução, como se poderá ler, é menos trivial e arcaico do que parece.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Contradições na esquerda latino-americana!

Contradições na esquerda latino-americana

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Por Immanuel Wallerstein
A América Latina tem sido o caso de sucesso da esquerda mundial, na primeira década do século 21. A afirmação é verdadeira em dois sentidos. O primeiro, e mais amplamente conhecido, é que partidos de esquerda, ou à esquerda do centro, venceram uma impressionante série de eleições, ao longo da década. E os governos latino-americanos, em conjunto, distanciaram-se significativamente dos Estados Unidos. A América Latina tornou-se uma força geopolítica relativamente autônoma, no cenário mundial.
Mas há um segundo aspecto do sucesso latino-americana na história da esquerda mundial. Movimentos das nações indígenas da região articularam-se politicamente em quase toda pate e reivindicaram o direito de organizar sua vida social e política de forma autônoma. Este fato emergiu primeiro com o levante dramático do movimento neo-zapatista, no Estado mexicano de Chiapas, em 1994. Foram menos notados o surgimento de formas similares de movimentos pela América Latina e o grau em que estão criando uma rede inter-americana de estruturas organizacionais locais.
O problema é que estes dois tipos de esquerda – os partidos que chegaram ao poder em diversos países e os movimentos das nações indígenas – não têm objetivos idêntico e servem-se de uma linguagens ideológicas bastante distintas entre si mesmas.
Os partidos identificaram, como seu objetivo principal, o desenvolvimento econômico. Procuraram alcançá-lo ao menos em parte por meio de maior controle sobre seus próprios recursos e renegociação de acordos com empresas e governos estrangeiros, ou instituições intergovernamentais. Argumentam que o desenvolvimento é o único caminho para melhorar o padrão de vida de suas sociedades e maior equidade internacional.
Os movimentos das nações indígenas procuram obter maior controle sobre seus próprios recursos e melhores arranjos não apenas com atores não-nacionais – mas também com seus próprios governos. Em geral, afirmam que seu objetivo não é o crescimento econômico, mas ajustar-se à Pacha Mama, ou a mãe-terra. Sutentam que não perseguem ampliar o uso dos recursos naturais, mas empregá-los de modo mais saudável e em respeito ao equilíbrio ecológico. Buscam o bien vivir.
Não surpreende que movimentos das nações indígenas tenham entrado em conflito com alguns dos poucos governos conservadores da América Latina – como os do México, Colômbia e Peru. Progressivamente, porém, e de modo muito aberto, estes movimentos também divergem de governos à esquerda, como os do Brasil, Venezuela, Equador e até Bolívia.
Digo até Bolívia porque seu próprio presidente é membro de uma nação indígena e foi eleito com apoio maciço das nações indígenas de seu país. E ainda assim houve conflito. O tema, lá e em toda a região, é se e como os recursos naturais serão empregados; quem toma as decisões; quem controla as receitas financeiras.
Alguns partidos de esquerda tendem a acusar os movimentos indígenas que entram em conflito com eles de serem, conscientemente ou não, massa de manobra dos partidos de direita ou de organizações externas, em particular os Estados unidos. Os movimentos indígenas que se opõe aos partidos de esquerda insistem em que agem apenas em favor de seus próprios interesses e por sua iniciativa. Acusam os governos de esquerda de agir como os velhos conservadores, sem visão real sobre as consequências ambientais de sua atividade desenvolvimentista.
Algo interessante ocorreu recentemente no Equador. O governo de esquerda de Rafael Correa, que chegou ao poder inicialmente com apoio dos movimentos de nações indígenas, mais tarde entrou em conflito agudo com eles. O tema mais espinhoso envolvia o desejo do governo de explorar petróleo numa área de proteção ambiental na Amazônia, chamada Yasuni.
A princípio, o governo ignorou os protestos dos habitantes indígenas da região. Mas em certo momento, o presidente Correa decidiu partir para uma iniciativa engenhosa. Propôs aos governos dos países ricos do Norte que compensassem o Equador pela renúncia à exploração da reserva. A justificativa era a evidente contribuição à luta mundial contra a mudança climática.
Quando lançada, na Cúpula do Clima de Copenhague, em 2009, a proposta foi tratada como fantasia. Mas após seis longos meses de negociações, cinco governos europeus (Alemanha, Espanha, Bélgica, França e Suécia) concordaram em criar um fundo. Administrado pelo PNUD (o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), ele remunerará o Equador pela não-exploração da Yasumi – e a consequente redução das emissões de carbono. Falou-se até em criar um novo verbo,yasunizar, para qualificar acordos semelhantes.
Quantos acordos semelhantes será possível fazer. Há um tema mais fundamental em jogo. É a natureza do “Outro Mundo Possível” – para usar o slogan do Fórum Social Mundial. Ela estará baseada no crescimento econômico constante, ainda que de caráter “socialista” e visando elevar a renda das populações no Sul? Ou será o que alguns estão chamando de mundança nos valores civilizacionais, um mundo de bien vivir?
Não será um debate fácil. É algo discutido atualmente entre as forças de esquerda da América latina. Mas situações análogas formam a base de muitas das tensões internas na Ásia, África e mesmo Europa. Pode ser o grande debate do século 21.

Embrião de uma nova esquerda? - www.outraspalavras.net !

Embrião de uma nova esquerda?

Origens do movimento espanhol revelam busca de pós-capitalismo e esforço para superar velhas formas de centralização. Há avanços e limites
Por Antonio Martins | Com pesquisa de Luís F. C. Nagao
Se em 1989 caiu o muro de Berlim, em 2011 caíram todas as formulações sobre o fim da história e a falta de interesse dos jovens pela política. As mudanças no mundo árabe e a piora nas condições de vida com ausência de perspectiva na Europa estão gerando processos de luta social intensos e, sobretudo, inovadores.
O caso espanhol é significativo. O uso da internet como forma de comunicação direta entre os que os que rejeitam as lógicas do capitalismo não é novo. Em 2004, mensagens em massa, trocadas por celular, desconstruíram uma tentativa do então primeiro-ministro, José Aznar, para manipular atentatos terroristas e assegurar vitória eleitoral. Em 2006, houve mobilizações por casas dignas. Em 2010, greve geral  contra os ataques do governo a direitos trabalhistas. Há poucos meses, o ciberativismo mobilizou-se contra a chamada “Lei Sinde”, que, a pretexto de defender a propriedade intelectual, restringe a troca de músicas, vídeos e outras criações culturais via internet.
Nas últimas semanas, esta rica história de ações ajudou a propagar de forma muito rápida duas iniciativas que desembocaram na ocupação, pela juventude das praças centrais de mais de duzentas cidades – inclusive Madri e Barcelona. São elas: o movimento Juventude sem futuro e a convocatória da Democracia Real Já.
Juventude sem futuro é uma agrupação de associações universitárias que vem ganhando destaque por lutar contra a mercantilização do ensino e as contra-reformas trabalhista e no sistema de aposentadorias (aumento da idade mínima para receber os benefícios e redução de seu valor). As mudanças na lei trabalhista aumentam a precariedade dos contratos e reduzem o poder dos sindicatos, ao limitar as negociações coletivas conduzidas por eles. A taxa de desemprego juvenil está em 40%.
Mas a elitização do ensino foi, talvez, o fator que detonou a atual mobilização. O acesso à universidade torna-se cada vez mais restrito. Prioriza-se investimentos que formam uma elite – em geral direcionada para postos em grandes empresas – e deixa-se à míngua cursos menos diretamente relacionados com o mercado. Em 7 de abril, milhares de estudantes foram as ruas de Madri e mais dez cidades, em protesto contra mais uma rodada de ataque aos direitos sociais (veja no Youtube).
Mais ou menos à mesma época, surgiu o Democracia Real Já. Sua origem deu-se a partir de um grupo de discussão nas redes sociais da internet conhecido como “Plataforma de coordenação de grupos pró-mobilização cidadã” que preparava e coordenava ações comuns. Eles repudiam o bipartidarismo e a prática de atos violentos e/ou vandalismo. Reivindicam atuações pacíficas e desobediência civil. Identificam um mal-estar social generalizado, por conta da corrupção e a piora na qualidade de vida. Almejam uma nova democracia com maior participação popular nas decisões.
Enrique Dans, um dos animadores da coalizão, diz que os políticos dos principais partidos – PP, PSOE e CiU – representam os  interesses dos bancos, multinacionais e da Sociedade Geral de Autores e Editores (SGAE, similar ao ECAD brasileiro).  Após as primeiras mobilizações, foram feitos acordos mínimos entre os membros da Plataforma, que se veem como anticapitalistas. “Somos uma iniciativa cidadã para defender todo mundo: desempregados, jovens, precários, etc. Queremos que as pessoas esqueçam suas divergências ideológicas e se aproximem desse fórum comum à margem de partidos e de sindicatos.” afirma Dans: “uma de nossas razões de existir é a saturação que havia nos canais tradicionais de participação política que representam partidos políticos e grandes sindicatos.”
A partir do fórum aberto na página-web do grupo, os participantes enviam de forma espontânea propostas e se vão difundindo e votando os slogans,  assim como cartazes e recursos gráficos. Facebook, twitter e email são importantes alavancas nos processos de mobilização e organização do movimento. Um jovem montou uma convocatória por Facebook em Sevilha contra a gestão da crise e a corrupção política. Grupos em Madri e Santander apoiaram sua proposta de uma performance semanal de denúncia, em uma praça central. Mais tarde surgiu o nome: Estado de Mal-estar. Bastaram dois para que surgissem em cinquenta cidades, quase todas capitais de província, grupos promotores. As convocatórias para o 15 de maio foram importantes para que houvesse mobilizações em Madri e mais 40 cidades.
A horizontalidade tem, é claro, seus problemas. Aproveitando-se do caráter aberto dos grupos, policiais teriam levantado informações que permitiram a detenção de 18 pessoas, durante as manifestações de 15 de maio. O esforço afastar os espectros da centralização e autoritarismo dificulta, às vezes, assumir posições comuns. Fala-se numa nova democracia e em ser anti-capitalista, mas não consegue, até o momento, avançar concretamente para atingir seus objetivos. A maior visibilidade está, ainda, na recusa ao que existe. São os desafios a enfrentar de agora em diante. De qualquer forma, surgiu um novo marco político na Europa e ele tem enorme potência para se alastrar – em primeiro lugar, para outros países da já debilitada zona do Euro.

A esquerda mundial após 2011 | Fundação Perseu Abramo - FPA

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