"Louvado seja Allah, e que a benção e a paz estejam sobre o último de seus mensageiros, Muhammad, seus companheiros e seguidores.
O sofrimento a que está sujeito o povo sírio nas mãos de seu atual governo, através de terror, agressões, prisão, torturas, assassinatos e suplício de vivos e mortos, queima de mesquitas e residências, saques e estupros e, ainda mais, matança de soldados que se negam a matar civis inocentes... tudo isso apenas porque pediram pacificamente alguns de seus direitos legais para terem liberdade, honra e justiça.
Isto faz parte da injustiça, cujo protesto é obrigatório declarar e expor. Disse Allah, o Altíssimo: Allah não ama a declaração de maledicência, exceto a de quem sofre injustiça. E Allah é Oniouvinte, Onisciente (Annissá:148). E Abu Zhar Al Ghifari relata que o profeta (a paz esteja com ele) narrou de seu Senhor (exaltado seja): “Ó Meus servos! Eu proibi a injustiça a Mim mesmo, e a fiz proibida entre vós, portanto, não cometei injustiça” (narrado por Muslim).
Estas injustiças são o pior crime e agressão, aos quais os povos não estão acostumados a sofrer da parte de seus próprios governantes e, até mesmo, da parte de seus inimigos agressores. Não é nossa obrigação apenas não cooperar ou estar de acordo com os crimes cometidos hoje na Síria, mas também é nossa obrigação resistir e eliminar estes crimes... E ajudai-vos, mutuamente, na bondade e na piedade. E não vos ajudeis no pecado e na agressão (Al Maidah:2).
Por isso, renovamos a nossa posição anterior de condenar estes crimes e ataques contra o povo sírio e estar ao seu lado em suas demandas legítimas. Participamos da declaração promulgada no Congresso “Meios para o desenvolvimento das comunidades muçulmanas na América Latina e Caribe”, em Buenos Aires, Argentina no dia 05/03/2012, enfatizando o que segue:
A questão do povo sírio é uma reivindicação justa, por isso, será vitoriosa com a permissão de Allah e de acordo com a natureza que Ele criou. Ele decretou assim ao dizer no Alcorão Sagrado: É permitido o combate aos que são combatidos, porque sofreram injustiça. E por certo, Allah, sobre seu socorro, é Onipotente (Al Hajj:39). A situação do povo sírio estará em ascensão até que Allah complete a Sua graça sobre eles se forem pacientes e benfeitores. Porém, o sistema injusto atual, Deus deu-lhe prorrogação e este corrompeu e transgrediu intensamente, por isso, chegou a hora de seu fim. E quem Allah humilhar, não terá quem o honre.. (Al Hajj:18). E temos convicção de que ninguém o salvará do castigo de Deus.
E nós dizemos a todos aqueles cujo assunto deste povo interessa:
1) Os sábios sírios dentro e fora da Síria têm grande responsabilidade no apoio às reivindicações do povo e na proteção de sua revolução dos desvios ou saques dos verdadeiros objetivos desta revolta. Nós apelamos aos sábios da autoridade síria para que temam a Deus em suas pessoas e revelem a palavra da verdade e não declarem apoio aos injustos, porque eles são as pessoas que mais conhecem a corrupção do sistema e suas injustiças cometidas todos os dias contra o seu próprio povo.
2) Convidamos a nossa grande comunidade no Brasil, as entidades e fundações da sociedade civil a apoiar o povo sírio financeira e moralmente. E convocamos nossos sheikhs e imams no Brasil a revelar a injustiça desse sistema nos púlpitos das mesquitas e a rezarem a oração fúnebre de corpo ausente em memória dos mártires e a rogar a Allah, o Altíssimo, para que firme o povo sírio.
Finalmente, nos dirigimos ao povo sírio guerreiro: Tenham a boa nova, pois a nobreza de vossa revolução e a legitimidade de vosso jihad pacífico é matéria de consenso. Rogamos a Allah que socorra os nossos irmãos indefesos em todos os lugares, e socorra os nossos irmãos no território do Sham (Síria e seus arredores) contra o povo injusto, e una a palavra deles na verdade. Ó Allah, guie suas opiniões para a verdade, preserve as suas vidas, tende misericórdia de seus mortos, cure os seus doentes, liberte os seus prisioneiros e rebaixe os seus inimigos.
Que a paz esteja com o mensageiro de Allah, seus companheiros e seguidores.
São Paulo, 08 de março de 2012.
Secretaria Geral - Conselho Superior dos Teólogos e Assuntos Islâmicos do Brasil."
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sábado, 17 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
Immanuel Wallerstein: O impasse sírio - 20/02/2012.
Immanuel Wallerstein: O impasse sírio
Não creio que num ano ou dois assistamos à saída de Assad do poder, ou à mudança substancial do seu regime. Por mais que seja elevado o volume da retórica e por mais terrível que seja a guerra civil, ninguém quer realmente que Assad saia. Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel, Turquia e França, nenhum destes países quer intervir diretamente no conflito sírio. Posso imaginar o suspiro de alívio de Washington, quando a Rússia vetou a resolução da ONU sobre a Síria. Por isso, com todas as probabilidades, Assad vai ficar. O artigo é de Immanuel Wallerstein.
Immanuel Wallerstein - Esquerda.net
Bashar al-Assad carrega o peso de ser um dos homens menos populares do mundo. Quase todos o denunciam como tirano, um muito sangrento tirano. Mesmos os governos que se recusam a denunciá-lo parecem estar a aconselhá-lo a moderar os métodos repressivos e fazer algum tipo de concessões políticas aos seus opositores internos.
Mas então como ignora ele todos estes conselhos e continua a aplicar a máxima força para manter o controle político da Síria? Por que não há intervenção externa para provocar a sua derrubada? Para responder a estas questões, comecemos por avaliar as suas forças. Para começar, ele tem um exército razoavelmente poderoso e, até agora, com poucas exceções, o exército e outras estruturas repressivas do país permaneceram leais ao regime. Em segundo lugar, ainda parece contar com o apoio de pelo menos metade da população, naquilo que está cada vez mais a ser descrito como uma guerra civil.
Os postos-chave do governo e o corpo de oficiais das forças aramadas estão nas mãos dos alauítas, uma ala do Islã xiita. Os alauítas são uma minoria da população e temem evidentemente o que lhes poderia suceder se as forças de oposição, maioritariamente sunitas, tomassem o poder. Além disso, as outras forças minoritárias significativas – cristãos, drusos e curdos – também parecem temer um governo sunita. Por fim, a ampla burguesia mercantil ainda não se voltou contra Assad e o regime do Baath.
Mas isso é suficiente? Se os apoios fossem só esses, duvido que Assad pudesse manter-se por muito tempo. O regime está sendo sufocado economicamente. O Exército Sírio Livre, de oposição, está sendo abastecido de armas pelos sunitas iraquianos e provavelmente pelo Qatar. E o coro de denúncias na imprensa mundial, e de políticos de múltiplas tendências, aumenta de volume a cada dia.
Ainda assim, não creio que num ano ou dois assistamos à saída de Assad do poder, ou à mudança substancial do seu regime. O motivo é que aqueles que mais o denunciam não desejam de fato que ele caia. Vamos analisá-los um a um.
Arábia Saudita: o ministro dos Negócios Estrangeiros disse ao New York Times que “a violência tem de parar e o governo sírio não merece que lhe deem mais hipóteses”. Soa de fato muito duro, até que se descobre que o mesmo ministro acrescentou: “a intervenção internacional deve ser descartada”. O fato é que a Arábia Saudita quer ter o crédito de se opor a Assad, mas tem muito medo do governo que possa suceder-lhe. Sabe que numa Síria pós-Assad (provavelmente, bastante anárquica), a Al Qaeda encontraria uma base. E os sauditas sabem que o objetivo número um da Al Qaeda é derrubar o regime saudita. Logo, “nada de intervenção internacional”.
Israel: sim, os israelenses continuam obcecados pelo Irã. E sim, a Síria baathista continua a ser uma potência favorável ao Irã. Mas na hora de fazer as contas, a Síria tem sido um vizinho árabe relativamente tranquilo, uma ilha de estabilidade para os israelenses. Sim, os sírios ajudam o Hezbollah, mas o Hezbollah também se tem mantido calmo. Por que iriam os israelenses querer correr o risco de uma turbulenta Síria pós-baathista? Quem assumiria o poder? Não iria querer reforçar as suas credenciais ampliando a jihad contra Israel? E a queda de Assad não abalaria a estabilidade relativa que o Líbano parece agora desfrutar? O resultado não acabaria por ser uma renovação do radicalismo do Hezbollah? Israel tem muito a perder, e não muito a ganhar, se Assad cair.
Estados Unidos: a Casa Branca fala em tom elevado. Mas o leitor reparou como é cautelosa, na prática? O Washington Post deu, a um artigo de 11/2, o título: “Perante a carnificina, os EUA não veem ‘boas opções’ na Síria”. O texto sublinha que o governo dos EUA “não tem apetite para uma intervenção militar”. Nenhum apetite, apesar da pressão de intelectuais neoconservadores como Charles Krauthammer, que é suficientemente honesto para admitir que “não se trata apenas de liberdade”. Trata-se, diz ele, de desfazer o regime iraniano.
Mas não é exatamente por isso que Obama e os seus conselheiros não veem boas alternativas? Eles foram pressionados a entrar na operação da Líbia. Os EUA não perderam muitas vidas, mas será que obtiveram alguma vantagem geopolítica? O novo regime líbio – se é que se pode falar em novo regime líbio – é melhor que o anterior? Ou é o começo de uma longa instabilidade interna, como a que abalou o Iraque?
Assim, posso imaginar o suspiro de alívio de Washington, quando a Rússia vetou a resolução da ONU sobre a Síria. A pressão para iniciar uma intervenção de estilo líbio foi suspensa. Obama foi protegido contra o assédio republicano pelo veto russo. E Susan Rice, a embaixatriz dos EUA na ONU, pôde atirar toda a culpa para Moscou. Eles foram “repugnantes”, disse ela, oh, tão diplomaticamente.
França: Sempre nostálgica do papel outrora dominante do seu país na Síria, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé, grita e denuncia. Mas tropas? Deve estar a brincar. Há uma eleição à vista, e enviar soldados não seria nada popular, até porque, ao contrário da Líbia, a ação militar não seria um passeio.
Turquia: na última década, o país ampliou de forma incrível as suas relações com o mundo árabe. Ankara está de fato descontente com uma guerra civil nas suas fronteiras. Adoraria algum tipo de compromisso político. Mas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ahmet Davutoglu, teria garantido que “a Turquia não está a fornecer armas ou a apoiar desertores do exército”. A Turquia deseja essencialmente ter boas relações com todas as partes. Além disso, a Turquia tem a sua própria questão curda e a Síria poderia oferecer apoio ativo a esta minoria – o que, até agora, se absteve de fazer.
Portanto, quem quer intervir na Síria? Talvez o Qatar. Mas o Qatar, por mais rico que seja, está longe de ser uma importante potência militar. A conclusão é que, por mais que seja elevado o volume da retórica e por mais terrível que seja a guerra civil, ninguém quer realmente que Assad saia. Por isso, com todas as probabilidades, ele vai ficar.
15 de fevereiro de 2012
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
Mas então como ignora ele todos estes conselhos e continua a aplicar a máxima força para manter o controle político da Síria? Por que não há intervenção externa para provocar a sua derrubada? Para responder a estas questões, comecemos por avaliar as suas forças. Para começar, ele tem um exército razoavelmente poderoso e, até agora, com poucas exceções, o exército e outras estruturas repressivas do país permaneceram leais ao regime. Em segundo lugar, ainda parece contar com o apoio de pelo menos metade da população, naquilo que está cada vez mais a ser descrito como uma guerra civil.
Os postos-chave do governo e o corpo de oficiais das forças aramadas estão nas mãos dos alauítas, uma ala do Islã xiita. Os alauítas são uma minoria da população e temem evidentemente o que lhes poderia suceder se as forças de oposição, maioritariamente sunitas, tomassem o poder. Além disso, as outras forças minoritárias significativas – cristãos, drusos e curdos – também parecem temer um governo sunita. Por fim, a ampla burguesia mercantil ainda não se voltou contra Assad e o regime do Baath.
Mas isso é suficiente? Se os apoios fossem só esses, duvido que Assad pudesse manter-se por muito tempo. O regime está sendo sufocado economicamente. O Exército Sírio Livre, de oposição, está sendo abastecido de armas pelos sunitas iraquianos e provavelmente pelo Qatar. E o coro de denúncias na imprensa mundial, e de políticos de múltiplas tendências, aumenta de volume a cada dia.
Ainda assim, não creio que num ano ou dois assistamos à saída de Assad do poder, ou à mudança substancial do seu regime. O motivo é que aqueles que mais o denunciam não desejam de fato que ele caia. Vamos analisá-los um a um.
Arábia Saudita: o ministro dos Negócios Estrangeiros disse ao New York Times que “a violência tem de parar e o governo sírio não merece que lhe deem mais hipóteses”. Soa de fato muito duro, até que se descobre que o mesmo ministro acrescentou: “a intervenção internacional deve ser descartada”. O fato é que a Arábia Saudita quer ter o crédito de se opor a Assad, mas tem muito medo do governo que possa suceder-lhe. Sabe que numa Síria pós-Assad (provavelmente, bastante anárquica), a Al Qaeda encontraria uma base. E os sauditas sabem que o objetivo número um da Al Qaeda é derrubar o regime saudita. Logo, “nada de intervenção internacional”.
Israel: sim, os israelenses continuam obcecados pelo Irã. E sim, a Síria baathista continua a ser uma potência favorável ao Irã. Mas na hora de fazer as contas, a Síria tem sido um vizinho árabe relativamente tranquilo, uma ilha de estabilidade para os israelenses. Sim, os sírios ajudam o Hezbollah, mas o Hezbollah também se tem mantido calmo. Por que iriam os israelenses querer correr o risco de uma turbulenta Síria pós-baathista? Quem assumiria o poder? Não iria querer reforçar as suas credenciais ampliando a jihad contra Israel? E a queda de Assad não abalaria a estabilidade relativa que o Líbano parece agora desfrutar? O resultado não acabaria por ser uma renovação do radicalismo do Hezbollah? Israel tem muito a perder, e não muito a ganhar, se Assad cair.
Estados Unidos: a Casa Branca fala em tom elevado. Mas o leitor reparou como é cautelosa, na prática? O Washington Post deu, a um artigo de 11/2, o título: “Perante a carnificina, os EUA não veem ‘boas opções’ na Síria”. O texto sublinha que o governo dos EUA “não tem apetite para uma intervenção militar”. Nenhum apetite, apesar da pressão de intelectuais neoconservadores como Charles Krauthammer, que é suficientemente honesto para admitir que “não se trata apenas de liberdade”. Trata-se, diz ele, de desfazer o regime iraniano.
Mas não é exatamente por isso que Obama e os seus conselheiros não veem boas alternativas? Eles foram pressionados a entrar na operação da Líbia. Os EUA não perderam muitas vidas, mas será que obtiveram alguma vantagem geopolítica? O novo regime líbio – se é que se pode falar em novo regime líbio – é melhor que o anterior? Ou é o começo de uma longa instabilidade interna, como a que abalou o Iraque?
Assim, posso imaginar o suspiro de alívio de Washington, quando a Rússia vetou a resolução da ONU sobre a Síria. A pressão para iniciar uma intervenção de estilo líbio foi suspensa. Obama foi protegido contra o assédio republicano pelo veto russo. E Susan Rice, a embaixatriz dos EUA na ONU, pôde atirar toda a culpa para Moscou. Eles foram “repugnantes”, disse ela, oh, tão diplomaticamente.
França: Sempre nostálgica do papel outrora dominante do seu país na Síria, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé, grita e denuncia. Mas tropas? Deve estar a brincar. Há uma eleição à vista, e enviar soldados não seria nada popular, até porque, ao contrário da Líbia, a ação militar não seria um passeio.
Turquia: na última década, o país ampliou de forma incrível as suas relações com o mundo árabe. Ankara está de fato descontente com uma guerra civil nas suas fronteiras. Adoraria algum tipo de compromisso político. Mas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ahmet Davutoglu, teria garantido que “a Turquia não está a fornecer armas ou a apoiar desertores do exército”. A Turquia deseja essencialmente ter boas relações com todas as partes. Além disso, a Turquia tem a sua própria questão curda e a Síria poderia oferecer apoio ativo a esta minoria – o que, até agora, se absteve de fazer.
Portanto, quem quer intervir na Síria? Talvez o Qatar. Mas o Qatar, por mais rico que seja, está longe de ser uma importante potência militar. A conclusão é que, por mais que seja elevado o volume da retórica e por mais terrível que seja a guerra civil, ninguém quer realmente que Assad saia. Por isso, com todas as probabilidades, ele vai ficar.
15 de fevereiro de 2012
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
sábado, 4 de fevereiro de 2012
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