terça-feira, 21 de maio de 2013

Acordei doente mental: A quinta edição da “Bíblia da Psiquiatria”, o DSM-5, transformou numa “anormalidade” ser “normal”


Por Eliane Brum



A poderosa American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria – APA) lançou neste final de semana a nova edição do que é conhecido como a “Bíblia da Psiquiatria”: o DSM-5. E, de imediato, virei doente mental. Não estou sozinha. Está cada vez mais difícil não se encaixar em uma ou várias doenças do manual. Se uma pesquisa já mostrou que quase metade dos adultos americanos tiveram pelo menos um transtorno psiquiátrico durante a vida, alguns críticos renomados desta quinta edição do manual têm afirmado que agora o número de pessoas com doenças mentais vai se multiplicar. E assim poderemos chegar a um impasse muito, mas muito fascinante, mas também muito perigoso: a psiquiatria conseguiria a façanha de transformar a “normalidade” em “anormalidade”. O “normal” seria ser “anormal”.





A nova edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) exibe mais de 300 patologias, distribuídas por 947 páginas. Custa US$ 133,08 (com desconto) no anúncio de pré-venda no site da Amazon. Descobri que sou doente mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos 90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo apartamento. Remédio pra mim. “Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite condensado, remédio pra mim. Identifiquei outras anomalias, mas fiquemos neste parágrafo gigante, para que os transtornos psiquiátricos que me afetam não ocupem o texto inteiro.

Há uma novidade mais interessante do que as doenças recém inventadas pela nova “Bíblia”. Seu lançamento vem marcado por uma controvérsia sem precedentes. Se sempre houve uma crítica contundente às edições anteriores, especialmente por parte de psicólogos e psicanalistas, a quinta edição tem sido atacada com mais ferocidade justamente por quem costumava não só defender o manual, como participar de sua elaboração. Alguns nomes reluzentes da psiquiatria americana estão, digamos, saltando do navio. Como não há cordeiros nesse campo, movido em parte pelos bilhões de dólares da indústria farmacêutica, é legítimo perguntar: perceberam que há abusos e estão fazendo uma “mea culpa” sincera antes que seja tarde, ou estão vendo que o navio está adernando e querem salvar o seu nome, ou trata-se de uma disputa interna de poder em que os participantes das edições anteriores foram derrotados por outro grupo, ou tudo isso junto e mais alguma coisa?



Não conheço os labirintos da APA para alcançar a resposta, mas acredito que vale a pena ficarmos atentos aos próximos capítulos. Por um motivo acima de qualquer suspeita: o DSM influencia não só a saúde mental nos Estados Unidos, mas é o manual utilizado pelos médicos em praticamente todos os países, pelo menos os ocidentais, incluindo o Brasil. É também usado como referência no sistema de classificação de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). É, portanto, o que define o que é ser “anormal” em nossa época – e este é um enorme poder. Vale a pena sublinhar com tinta bem forte que, para cada nova patologia, abre-se um novo mercado para a indústria farmacêutica. Esta, sim, nunca foi tão feliz – e saudável.





O crítico mais barulhento do DSM-5 parece ser o psiquiatra Allen Frances, que, vejam só, foi o coordenador da quarta edição do manual, lançada em 1994. Professor emérito da Universidade de Duke, ele tem um blog no Huffington Post que praticamente usa apenas para detonar a nova Bíblia da Psiquiatria. Quando a versão final do manual foi aprovada, enumerou o que considera as dez piores mudanças da quinta edição, num texto iniciado com a seguinte frase: “Esse é o momento mais triste nos meus 45 anos de carreira de estudo, prática e ensino da psiquiatria”. Em carta ao The New York Times, afirmou: “As fronteiras da psiquiatria continuam a se expandir, a esfera do normal está encolhendo”.





Entre suas críticas mais contundentes está o fato de o DSM-5 ter transformado o que chamou de “birra infantil” em doença mental. A nova patologia é chamada de “Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor” e atingiria crianças e adolescentes que apresentassem episódios frequentes de irritabilidade e descontrole emocional. No que se refere à patologização da infância, o comentário mais incisivo de Allen Frances talvez seja este: “Nós não temos ideia de como esses novos diagnósticos não testados irão influenciar no dia a dia da prática médica, mas meu medo é que isso irá exacerbar e não amenizar o já excessivo e inapropriado uso de medicação em crianças. Durante as duas últimas décadas, a psiquiatria infantil já provocou três modismos — triplicou o Transtorno de Déficit de Atenção, aumentou em mais de 20 vezes o autismo e aumentou em 40 vezes o transtorno bipolar na infância. Esse campo deveria sentir-se constrangido por esse currículo lamentável e deveria engajar-se agora na tarefa crucial de educar os profissionais e o público sobre a dificuldade de diagnosticar as crianças com precisão e sobre os riscos de medicá-las em excesso. O DSM-5 não deveria adicionar um novo transtorno com o potencial de resultar em um novo modismo e no uso ainda mais inapropriado de medicamentos em crianças vulneráveis".





A epidemia de doenças como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) tem mobilizado gestores de saúde pública, assustados com o excesso de diagnósticos e a suspeita de uso abusivo de drogas como Ritalina, inclusive no Brasil. E motivado algumas retratações por parte de psiquiatras que fizeram seu nome difundindo a doença. Uma reportagem do The New York Times sobre o tema conta que o psiquiatra Ned Hallowell, autor de best-sellers sobre TDAH, hoje arrepende-se de dizer aos pais que medicamentos como Adderall e outros eram “mais seguros que Aspirina”. Hallowell, agora mais comedido, afirma: “Arrependo-me da analogia e não direi isso novamente”. E acrescenta: “Agora é o momento de chamar a atenção para os perigos que podem estar associados a diagnósticos displicentes. Nós temos crianças lá fora usando essas drogas como anabolizantes mentais – isso é perigoso e eu odeio pensar que desempenhei um papel na criação desse problema”. No DSM-5, a idade limite para o aparecimento dos primeiros sintomas de TDAH foi esticada dos 7 anos, determinados na versão anterior, para 12 anos, aumentando o temor de uma “hiperinflação de diagnósticos”.





Pensar sobre a controvérsia gerada pelo nova “Bíblia da Psiquiatria” é pensar sobre algumas construções constitutivas do período histórico que vivemos. Construções culturais que dizem quem somos nós, os homens e mulheres dessa época. A começar pelo fato de darmos a um grupo de psiquiatras o poder – incomensurável – de definir o que é ser “normal”. E assim interferir direta e indiretamente na vida de todos, assim como nas políticas governamentais de saúde pública, com consequências e implicações que ainda precisam ser muito melhor analisadas e compreendidas. Sem esquecer, em nenhum momento sequer, que a definição das doenças mentais está intrinsicamente ligada a uma das indústrias mais lucrativas do mundo atual.





Parte dos organizadores não gosta que o manual seja chamado de “Bíblia”. Mas, de fato, é o que ele tem sido, na medida em que uma parcela significativa dos psiquiatras do mundo ocidental trata os verbetes como dogmas, alterando a vida de milhões de pessoas a partir do que não deixa de ser um tipo de crença. Talvez seja em parte por isso que o diretor do National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental – NIMH), possivelmente a maior organização de pesquisa em saúde mental do mundo, tenha anunciado o distanciamento da instituição das categorias do DSM-5. Thomas Insel escreveu em seu blog que o DSM não é uma Bíblia, mas no máximo um “dicionário”: “A fraqueza (do DSM) é sua falta de fundamentação. Seus diagnósticos são baseados no consenso sobre grupos de sintomas clínicos, não em qualquer avaliação objetiva em laboratório. (...) Os pacientes com doenças mentais merecem algo melhor”. O NIMH iniciou um projeto para a criação de um novo sistema de classificação, incorporando investigação genética, imagens, ciência cognitiva e “outros níveis de informação” – o que também deve gerar controvérsias.





A polêmica em torno do DSM-5 é uma boa notícia. E torço para que seja apenas o início de um debate sério e profundo, que vá muito além da medicina, da psicologia e da ciência. “Há pelo menos 20 anos tem se tratado como doença mental quase todo tipo de comportamento ou sentimento humano”, disse a psicóloga Paula Caplan à BBC Brasil. Ela afirma ter participado por dois anos da elaboração da edição anterior do manual, antes de abandoná-la por razões “éticas e profissionais”, assim como por ter testemunhado “distorções em pesquisas”. Escreveu um livro com o seguinte título: “Eles dizem que você é louco: como os psiquiatras mais poderosos do mundo decidem quem é normal”.





A vida tornou-se uma patologia. E tudo o que é da vida parece ter virado sintoma de uma doença mental. Talvez o exemplo mais emblemático da quinta edição do manual seja a forma de olhar para o luto. Agora, quem perder alguém que ama pode receber um diagnóstico de depressão. Se a tristeza e outros sentimentos persistirem por mais de duas semanas, há chances de que um médico passe a tratá-los como sintomas e faça do luto um transtorno mental. Em vez de elaborar a perda – com espaço para vivê-la e para, no tempo de cada um, dar um lugar para essa falta que permita seguir vivendo –, a pessoa terá sua dor silenciada com drogas. É preciso se espantar – e se espantar muito.





Vale a pena olhar pelo avesso: quem são essas pessoas que acham que o “normal” é superar a perda de uma mãe, de um pai, de um filho, de um companheiro rapidamente? Que tipo de ser humano consegue essa proeza? Quem seríamos nós se precisássemos de apenas duas semanas para elaborar a dor por algo dessa magnitude? Talvez o DSM-5 diga mais dos psiquiatras que o organizaram do que dos pacientes.





Há ainda mais uma consequência cruel, que pode provocar muito sofrimento. Ao transformar o que é da vida em doença mental, os defensores dessa abordagem estão desamparando as pessoas que realmente precisam da sua ajuda. Aquelas que efetivamente podem ser beneficiadas por tratamento e por medicamentos. Se quase tudo é patologia, torna-se cada vez mais difícil saber o que é, de fato, patologia. Por sorte, há psiquiatras éticos e competentes que agem com consciência em seus consultórios. Mas sempre foi difícil em qualquer área distinguir-se da manada – e mais ainda nesta área, que envolve o assédio sedutor, lucrativo e persistente dos laboratórios.





Se as consequências não fossem tão nefastas, seria até interessante. Ao considerar que quase tudo é “anormal”, os organizadores do manual poderiam estar chegando a uma concepção filosófica bem libertadora. A de que, como diria Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. E não é mesmo, o que não significa que seja doente mental por isso e tenha de se tornar um viciado em drogas legais para ser aceito. Só se pode compreender as escolhas de alguém a partir do sentido que as pessoas dão às suas escolhas. E não há dois sentidos iguais para a mesma escolha, na medida em que não existem duas pessoas iguais. A beleza do humano é que aquilo que nos une é justamente a diferença. Somos iguais porque somos diferentes.





Esse debate não pertence apenas à medicina, à psicologia e à ciência, ou mesmo à economia e à política. É preciso quebrar os monopólios sobre essa discussão, para que se torne um debate no âmbito abrangente da cultura. É de compreender quem somos e como chegamos até aqui que se trata. E também de quem queremos ser. A definição do que é “normal” e “anormal” – ou a definição de que é preciso ter uma definição – é uma construção cultural. E nos envolve a todos. Que cada vez mais as definições sobre normalidade/anormalidade sejam monopólios da psiquiatria e uma fonte bilionária de lucros para a indústria farmacêutica é um dado dos mais relevantes – mas está longe de ser tudo.





E não, eu não acordei doente mental. Só teria acordado se permitisse a uma Bíblia – e a pastores de jaleco – determinar os sentidos que construo para a minha vida.







Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/05/acordei-doente-mental.html



segunda-feira, 6 de maio de 2013

Internação Compulsória : O Debate é Fundamental !

Ministra Gleisi apoia internação compulsória de dependentes


Enviado por luisnassif, seg, 06/05/2013 - 11:15



Por Gunter Zibell - SP

Do O Globo



Gleisi Hoffmann apoia internação involuntária de dependentes químicos



‘Não podemos nos apegar a polêmicas que não estão embasadas na realidade’, diz ela



Vinicius Sassine



BRASÍLIA — No Palácio do Planalto, o comando das negociações sobre o projeto de lei que prevê internações involuntárias de dependentes de drogas foi assumido pela ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Também é papel da ministra cobrar dos Ministérios da Justiça e da Saúde a liberação de R$ 230 milhões para comunidades terapêuticas, entidades de cunho religioso que ganham força no projeto de lei prestes a ser votado no plenário da Câmara – a previsão é de votação na próxima quarta, 8. Em entrevista ao GLOBO, Gleisi disse que o governo como um todo é favorável à internação involuntária e que a sociedade cobra estrutura para esse tipo de atendimento. “Não podemos nos apegar a polêmicas que não estão embasadas na realidade”, diz a ministra. Ela defendeu as comunidades terapêuticas – inclusive o viés religioso empregado na terapia – e disse ser contrária à descriminalização do uso de drogas. “Pode ser uma solução simplista.” A seguir, os principais trechos da entrevista:



O cerne do projeto de lei a ser votado na Câmara é a internação involuntária. Na mesa de negociações, o governo concordou. A presidente Dilma Rousseff e a senhora são favoráveis?



Já existe previsão legal de modalidades de internação, na Lei Antimanicomial, de 2001. O governo acata a lei e tem de dar condições para que seja cumprida. O relator da matéria (deputado Givaldo Carimbão, do PSB de Alagoas) quis que essas modalidades de internação também ficassem claras no projeto que trata dos usuários de drogas. Como repete a lei, não temos objeção. Na Lei Antimanicomial, qualquer um pode encaminhar a pessoa ao médico e solicitar a internação involuntária. Na proposta do relator, seria a família ou qualquer servidor público. Pedimos que permanecesse clara a possibilidade da família e que qualificássemos o servidor público responsável por encaminhamentos, que fosse um servidor com atuação em saúde ou assistência social, para não possibilitar que servidores da área de segurança pudessem fazer isso e caracterizar uma repressão. Temos muito cuidado com isso. O relator concordou e achamos que esse texto cumpre o seu objetivo. A pessoa pode procurar sozinha um atendimento, ou a família, sempre sob avaliação médica. O médico dá o laudo final.



A internação involuntária desperta bastante crítica, dentro do próprio governo. A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) manifestou em nota técnica preocupação com internações indiscriminadas, mesma crítica de técnicos do Ministério da Saúde.



Essa construção foi resultado da participação de todos os órgãos de governo. Estiveram aqui o secretário nacional de Saúde, o ministro (da Saúde, Alexandre) Padilha, o ministro (da Justiça) José Eduardo (Cardozo), a Senad. Em nenhum momento, na mesa de discussão, esse assunto foi levantado. Todos concordaram com a visão de ser a família, um representante da saúde, da assistência social (a pedir a internação) e inclusive disseram que isso representa um avanço em relação à Lei Antimanicomial. Não podemos nos apegar a polêmicas que não estão embasadas na realidade. Hoje temos dificuldade de fazer um tratamento para um usuário de drogas. O que a sociedade tem reivindicado é exatamente que a gente tenha uma estrutura para poder dispor esse tratamento. Falar de internações indiscriminadas não tem aderência na realidade.



Outro ponto polêmico é a destinação de dinheiro público para as comunidades terapêuticas. São R$ 130 milhões pela Senad e R$ 100 milhões pelo Ministério da Saúde. A senhora acha que os editais devem ser modificados para o dinheiro ser liberado mais rapidamente?



A Senad trouxe para a mesa de discussões a importância de parcerias com as comunidades. Elas fazem um trabalho que o Estado não consegue fazer, de acolhimento, de atendimento às famílias. O governo entendeu que era importante, eu também pessoalmente considerei importante. Nunca pretendemos, enquanto Estado, enquanto governo, ser donos da verdade sobre esse assunto. Quando iniciamos o projeto, já conhecíamos as polêmicas, os debates, mas apostamos que tínhamos mais convergência do que discórdia. A grande convergência é que estamos diante de um assunto que amedronta a sociedade brasileira, traz desgraça a muitas famílias e pessoas. Tudo é importante nessa luta e por isso consideramos a participação das comunidades terapêuticas. Comunidades que nunca foram vistas por nós como equipamentos de saúde podem ter uma ação por meio de projetos.



Existe uma diferenciação das comunidades mais clínicas e das que fazem apenas acolhimento?



Exatamente. A partir daí vimos a dificuldade da Saúde em encaminhar uma ação com essas comunidades de acolhimento, que são importantes no processo. Depois do tratamento intensivo de saúde, elas têm o objetivo de fazer a reinserção social e não se confundem com internação ou tratamento. O papel das comunidades é apoiar o usuário a se ver livre das drogas. É uma ajuda. O acolhimento será sempre voluntário. O usuário define sua permanência.



A senhora entende que o viés religioso das entidades não é um problema? Seria um recurso a mais na terapia?



Nem todas as comunidades são religiosas e muitas professam fés diferenciadas. Há comunidades ligadas à Igreja Católica, a igrejas evangélicas, espíritas. Ser religiosa não pode ser visto como um impeditivo. Vivemos num país religioso, a grande maioria da população professa uma fé. OEstado é laico, não pode optar por nenhuma fé, mas isso não significa que ele tenha de desrespeitar a opção das pessoas. Temos de respeitar: se a pessoa foi de forma voluntária a uma comunidade e acha que está fazendo bem a ela, se essa comunidade está seguindo as regras do edital, não cabe ao Estado fazer tutela.



A falta de estrutura dessas comunidades vem impedindo a liberação de dinheiro público.



.Isso é muito novo, nunca houve essa relação com as comunidades. Elas nunca se prepararam para ter uma ação com o Estado brasileiro, muitas ainda não estão estruturadas. Vai ter um tempo, mesmo, e vão perdurar as que têm interesse e que vão se ajustar. Vamos orientar, mas vamos ser muito rigorosos na cobrança. Os problemas com ONGs em vários ministérios levaram a uma série de medidas.



Isso atrapalhou a liberação do dinheiro para as comunidades?



Não atrapalhou. Não faremos nenhum convênio se não for objeto de um edital público de seleção. Deve haver pelo menos três anos de atividades. Os contratos de repasses devem ser com entidades sem fins lucrativos, assinados por um ministro de Estado. Os pagamentos são por ordem bancária, não há nenhum pagamento que não fique registrado. A (Controladoria Geral da União) CGU acompanha de perto. Há ainda outros requisitos: segurança sanitária estabelecida pela Anvisa, comunicação formal de cada acolhimento, articulação com o sistema SUS, impossibilidade de ações de contenção física ou isolamento, acesso à comunicação com a família, vistorias por conselhos municipais. É um processo mais demorado. Quando começarmos a termos os convênios haverá a prestação de um serviço de qualidade às pessoas.



O edital do Ministério da Saúde, ao prever equipes médicas nas comunidades terapêuticas, perdeu o sentido?



Continua valendo, tanto que estão soltando outro edital. Há clínicas particulares que podem atender, que são equipadas e que e não estão na rede. Com os equipamentos de saúde, o regramento é muito mais severo. Essas entidades fazem tratamento de saúde, é diferente.



Na Cúpula das Américas na Colômbia, em 2012, a presidente Dilma se comprometeu com a discussão de cenários da legislação de drogas. A senhora é favorável ou contrária à descriminalização do uso de drogas?



Sou contrária à descriminalização das drogas. Às vezes pode parecer dar resultado, se formos analisar em relação ao tráfico. Já vi muitos argumentos dizendo que enfraqueceria o tráfico. Mas necessariamente não enfraquece o impacto na vida das pessoas. Legalizar uma droga não quer dizer que minora o problema. Pode ser uma solução simplista. Hoje, uma das drogas mais motivadoras de violência no trânsito, em casa, contra as mulheres e crianças é o álcool. Temos de fazer campanhas periódicas falando do problema do álcool no trânsito.



Mas o álcool é uma droga legalizada. O que mais se discute em relação a drogas como a maconha é descriminalizar o uso e continuar a penalizar a venda, o tráfico.



A nossa legislação já prevê a diferenciação. O ministro José Eduardo Cardozo recebeu os autores do projeto e foi bastante firme em dizer a proposição do governo. Não aceitamos elevar a pena. Temos de ter foco no traficante.



A ideia de aumentar apenas a punição dos grandes traficantes, como propõe o Ministério da Justiça, é o que o governo defende?



Essa é a posição do governo.



A senhora é contrária à descriminalização, mas o governo continua a discutir esse cenário no Conselho Nacional sobre Drogas (Conad)?



Isso está no âmbito do Ministério da Justiça.



O acordo para as mudanças no projeto de lei a ser votado na Câmara já está bem amarrado?



Fizemos um esforço muito grande para discutir o projeto e dar uma resposta à sociedade. O Congresso Nacional e o governo têm essa preocupação. Cada um tem as suas convicções e olha o problema de uma maneira. Não é um tema fácil, mas não é porque é polêmico e difícil que vamos deixar de enfrentar, de fazer um programa que atenda o que a população requer hoje de nós. Fizemos um grande esforço de consertação desse projeto. O relator cedeu, o governo também avaliou alguns pontos, colocou na mesa. Pode ser que nem tudo esteja de acordo, mas acredito que os grandes temas vão ser acordados.



A presidente pode vetar algum ponto?



.A possibilidade de veto é uma prerrogativa constitucional da presidenta, sempre pode. Mas sobre o projeto é prematuro falar o que vai ser o resultado final da votação. Aquilo que nós acordarmos, com certeza, não será vetado.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Ampliando o Auto-Conhecimento

Gostei muito deste artigo!
Por: Ahmed Ismail



O Islam, quer seja em seus aspectos mais evidentes ou em sua dimensão esotérica (interior), enfatiza o auto-conhecimento como “caminho” tanto para a compreensão como para a própria “prática real” do din. Este necessário auto-conhecimento é citado de maneira constante no Alcorão e devido a sua complexidade, isto ocorre em passagens que poderiam ser tomadas como não relacionadas entre si.



Contudo, também as fiéis tradições do Mensageiro (saas) e dos purificados Imames de Ahlul Bait (as) de diversas maneiras chamam a atenção para a importância do auto-conhecimento demonstrando com clareza que a própria Palavra Revelada trata o tema em muitos de seus aspectos e isto se encontra esquematizado no Livro de Allah como uma Ciência Divina por excelência. Ayats sagrados como: “QUE O HOMEM CONSIDERE, POIS, DO QUE FOI CRIADO!” (S.86 V.5)



“PELA ALMA E POR QUEM A APERFEIÇOOU E LHE IMPRIMIU O DISCERNIMENTO ENTRE O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO.” (S. 91 V.7/8)



“E QUANDO TEU SENHOR DISSE AOS ANJOS: VOU INSTITUIR UM LEGATÁRIO NA TERRA ...” (S. 2 V. 30)



Fazem parte de uma série de passagens em que Allah fala ao homem sobre o homem e o convoca a reflexão sobre si mesmo, sobre os objetivos de sua origem, a natureza de sua essência e a sua posição no universo.



A finalidade deste auto-conhecimento não é restrita ao aprimoramento moral e espiritual, neste importante progresso da consciência reside também o alcance de uma percepção madura e virtuosa diante dos desafios da vida prática e dos problemas inerentes a cada época. O mundo moderno forjado sob a égide do predomínio das relações econômicas tem apresentado desafios para os seres humanos os quais jamais tinham sido conhecidos em qualquer outro período da história. Os avanços tecnológicos não obstante tenham produzido inegáveis benefícios trouxeram consigo uma gama de novas visões e conceitos sobre o homem e sua existência. Uma vigorosa mentalidade materialista que vê na óbvia superioridade da máquina sobre o homem na produção um forte argumento para “subestimar” o valor humano se desenvolveu e se propagou. Correntes ideológicas firmemente ancoradas na lógica do lucro geraram expectativas cruéis sobre os indivíduos.



O homem moderno se confronta com angustiantes expectativas de produção e consumo que manipulam sua auto-estima e seu auto-respeito. No âmago desta realidade está a falsa percepção incutida nos indivíduos de que um homem vale o que produz e o que é capaz de consumir. Podemos afirmar que esta é a mais destrutiva concepção sobre o homem e ela está na base de todas as inquietações e frustrações e em todo processo alienante que arrasta o ser humano a viver mais como um animal e a desperdiçar sua existência.



Se tomarmos como exemplo os EUA, veremos que por uma ironia a nação mais rica do mundo é também a nação onde uma maior ansiedade e infelicidade se fazem presentes. Os dois gêneros de livros que mais vendem nos EUA são os que prometem receitas para se ficar rico ou recobrar a auto-estima (o que via de regra significa “ter”). A conseqüência imediata é a frustração, o alcoolismo, o suicídio, as drogas para uma imensa maioria que não chegará “ao lugar ao sol” que muito poucos alcançam. E ao vermos os que “alcançam” percebemos que a realidade não é muito diferente.



O número de grandes astros da fama, de magnatas, homens e mulheres bem-sucedidos que encontram a frustração no fim do túnel é incalculável. Esta é uma dura realidade que é sutilmente oculta pelo sistema: tanto o fracasso como o sucesso matam do mesmo jeito e com os mesmos sintomas. A ansiedade de “ter” e a frustração do “não ter” possuem em comum o mesmo referencial: neles não há auto-conhecimento, ao contrário, há uma absoluta negação ao auto-conhecimento.



A palavra pecado em sua origem significa “errar o alvo” e ela se encaixa de modo perfeito para entendermos o processo destrutivo desta mentalidade materialista. Ao abandonarmos o vital empenho da reflexão sobre quem realmente somos e sobre qual o verdadeiro objetivo de nossa existência, somos induzidos a “crer” no que o mundo, um mundo dirigido pelo dinheiro não pela verdade, deseja nos fazer crer.



Esta fuga sistemática do auto-conhecimento é a força motriz de um estilo de vida inteiramente devotado ao exterior, a diversão, ao consumo desenfreado e a uma percepção dominada pela idéia de que “somos o que produzimos e o que podemos consumir”. Esta mentalidade corresponde a uma espécie de “darwinismo social” no qual seria uma seleção natural que determinaria o bem-estar dos fortes e a desgraça dos fracos e que, por conseguinte, em última análise “a culpa” do insucesso deveria ser inteiramente atribuída aos próprios indivíduos. Essa definição simplista e cruel apenas amplia a força destrutiva dos sentimentos de frustração para os quais grande parte dos indivíduos estão sendo arrastados no mundo moderno.



Além de cruel, esta idéia é cínica, na medida que pretende ocultar as verdadeiras implicações políticas e econômicas que dirigem o mundo e as sociedades para uma realidade cada vez mais excludente em que as necessidades e o valor dos seres humanos são cada vez menos levados em conta.



O Auto-Conhecimento para Uma Transformação Necessária



A palavra “conversão” no sentido em que é dado a ela no que diz respeito à religiosidade, possui em si uma bela definição do “aprimorar o auto-conhecimento”. Quando começamos a compreender quem realmente somos, não segundo o que mundo e as regras econômicas pretendem nos fazer crer, mas sim, segundo o que Allah revelou sobre a natureza humana e sua posição no cosmos, e na medida em que passamos a viver de acordo com este conhecimento, então, somente a partir daí que nossas vidas passam a este estágio de “conversão”. Neste estágio é que se encontra a reavaliação de nossos objetivos, das nossas relações com as outras pessoas, uma re-estruturação de nossos valores e de nossa ética em conformidade à Diretriz Divina.



O homem comum, o homem produto desta época é mais como “um produto em série”. Se olharmos para os seus objetivos, suas relações no trabalho, na família e todo o conjunto de seus costumes, crenças e valores morais e éticos perceberemos que todos esses itens estão submetidos aos padrões do dinheiro, da produção e do consumo. São estes padrões que afinal determinam o que há e o que não há de ser. Para compreender melhor isso tomemos como exemplo um homem rico e famoso. Se de repente ele se tornar um homem pobre, quais garantias ele tem de que o seu círculo de amizades atual permanecerá? De que sua esposa não o abandonará? De que toda sua família não dará as costas para ele? Este é um exemplo do que significa relações pessoais definidas pelos padrões do dinheiro, da produção e do consumo.



Pelo mesmo motivo é que nos tornamos uma sociedade que não suporta a velhice, não só por que ela nos lembra a morte, mas principalmente porque ela significa “sair do padrão exigido de produção”. Então, nos desfazemos de nossos idosos como de “trastes incômodos”, nós os enviamos para asilos para que esperem a morte. Dêem uma olhada nos hospitais e nos manicômios. Eles estão repletos de pessoas que foram abandonadas por seus familiares. Pessoas que quando eram saudáveis e produziam tinham filhos, maridos, esposas e agora que estão gravemente enfermos se tornaram “estorvos”.



É bem verdade que esta ainda não é uma regra geral da sociedade moderna, todavia é preocupante a sua crescente incidência nas últimas décadas na mesma proporção em que os valores religiosos decaem. Portanto, é essa busca do auto-conhecimento dirigida para a reavaliação dos nossos objetivos e da nossa visão da vida que se faz necessária. E ela é vital para que não nos tornemos vítimas e algozes de nós mesmos.



Há um profundo senso científico e lógico no conhecimento espiritual legado pelos Profetas (as) e Imames (as). Eles não abordavam o conhecimento para a teoria, muito ao contrário, eles o aplicavam segundo a lógica que podia ser compreendida pelo homem comum.



Concernente ao tema poderíamos citar a conhecida parábola atribuída a Isa (as) sobre a edificação da casa sobre a rocha ou sobre a areia como o perfeito método para a reavaliação de nossos objetivos e a redefinição de nossa vida. O viver segundo uma mentalidade irreligiosa e materialista se assemelha ao “construir a casa sobre a areia”. Erigir nossa vida sobre valores e objetivos falsos e inconsistentes. Valores e objetivos que de um modo ou de outro, a curto ou longo prazo, nos conduzirá a frustração. Ampliar o nosso auto-conhecimento significa, sobretudo, nos livrarmos das muitas falsas concepções que a sociedade materialista nos vende como verdades acabadas, sobre nós mesmos e sobre os demais seres humanos e sobre a própria existência. É compreender que a mentalidade materialista e irreligiosa existe para escravizar nossa mente e o nosso coração para que não encontremos qualquer traço de auto-estima e auto-respeito senão servindo a ela. Esta mentalidade irreligiosa se alimenta da infelicidade e da ignorância do homem sobre si mesmo.



Ao compreendermos isso, teremos dado um passo importante.



O segundo passo é “ouvir” “meditar atentamente” sobre o que Allah nos fala no Alcorão sobre “quem realmente somos” e quais são os verdadeiros objetivos de nossa existência. Uma pessoa que dê estes dois passos e que se firme neste caminho não estará vulnerável ao que tem conduzido milhões de pessoas a frustração, a destruição da auto-estima e do auto-respeito e conseqüentemente as muitas formas de auto-destruição que o sistema materialista nos coloca a disposição. E quando falo de auto-destruição, não me refiro apenas aos seus aspectos mais óbvios do alcoolismo ou das drogas. A auto-destruição na maioria das vezes é um processo moral e psicológico que atinge a alma humana.



É uma lamentável ironia que a sociedade moderna dirigida por esta mentalidade materialista e irreligiosa inclua na lista das ambições o “viver muito”. A medicina alopática dedica um grande esforço de pesquisa para encontrar recursos para “prolongar a vida”. Todavia, está fora de questão encontrar meios de garantir uma “vida com paz de espírito”. É assustador pensarmos que poderemos viver muito mais tempo não obstante não haja como garantir “satisfação na alma” “sentido a esse viver” de modo a que não seja apenas “uma lenta sucessão de dias e noites para busca de satisfação, enfastio, e, naturalmente, o inevitável envelhecimento e a aproximação da morte. Tudo o que este sistema irreligioso e materialista tem a oferecer e pode garantir é na melhor das hipóteses o enfastio dos sentidos, a sensação do acúmulo de coisas que possa preencher o vazio da alma.



Olhe para a publicidade (que é uma espécie de voz deste sistema), veja o que ela está a propor: o “novo” e super-moderno carro que lhe dará (?) sensação de poder, liberdade, independência e principalmente STATUS perante os demais. O “novo” produto ou método miraculoso que lhe dará (?) a juventude permanente, a beleza “que desafia o tempo”. Estas e todas as outras promessas da publicidade estão dirigidas para a sua “insatisfação mais profunda” ao seu medo ao “auto-conhecimento”, e por conseguinte, a “ausência de paz de espírito” que o domina. Por isso mesmo este sistema irreligioso e materialista precisa de nossa insatisfação, de nossa ausência de paz e de nossa rejeição ao auto-conhecimento. Para que você busque a “sensação” de liberdade ou de poder a todo custo é preciso que você não saiba o que é e não tenha nenhuma verdadeira liberdade ou poder em sua alma. Acaso podemos imaginar um publicitário tentando vender “promessas vazias” de liberdade, poder ou beleza e juventude permanente para um homem que tenha encontrado “um sentido espiritual em sua vida”? Decerto que não. Por esta razão é que este sistema materialista procura “destruir” a verdadeira religiosidade, substituí-la pelo que seja falso e superficial, pelo que possa “ser tratado como produto de consumo”. Este sistema desenvolveu a indústria da fé no ocidente na qual é possível atrair pessoas com slogans de “Jesus o salvará” ou “todos os seus problemas podem ser resolvidos agora”. Do mesmo modo ele pode atrair pessoas para “seitas místicas da moda” ou qualquer outro brinquedo da mente que dará a elas a “sensação” de “encontro interior” (desde que elas possam pagar por isso).



O ampliar o auto-conhecimento requer a consciência de todos esses processos que visam nos afastar da verdade. Porque o fato concreto é que o “encontro com a verdade” nos causa medo. A verdade não se conforma as nossas ilusões, ao contrário, ela as desfaz. Então, o caminho do auto-conhecimento requer coragem. E este é o real significado da “conversão”. Significa que não podemos continuar a viver e pensar segundo o que o sistema materialista e irreligioso nos propõe. Significa que temos que rejeitar os seus valores e padrões, reconhecê-los como falsos e então, substituí-los, pelos valores e padrões do DIN. Isto é, fundamentar a casa sobre a Rocha.



Aplicar estes valores e padrões na escolha de nossos objetivos, nas nossas atitudes e no modo como nos relacionamos com nossos semelhantes. Significa que não poderemos “amar” a Allah, ou nossa esposa ou nossos filhos e amigos segundo os interesses da mentalidade irreligiosa. Mas sim, aprender a fazê-lo segundo os padrões espirituais.



Não poderemos continuar a nos relacionarmos com Deus como quem tenta se utilizar disso para este ou aquele interesse, não poderemos continuar a “manipular” e nos “utilizar” das pessoas e chamar isso de “amor” ou “amizade”. Somente quando alguém estabelece esta “mudança de valores” é que se torna Religiosa. E então a mentalidade materialista, o sistema irreligioso não pode mais traficar suas “falsas esperanças” em sua vida. Isso se assemelha a um homem que, enquanto não conheça a moeda corrente autêntica de um país estranho, aceitará facilmente qualquer moeda falsa que seja oferecida a ele. Porém, ao conhecer a moeda verdadeira não mais aceitará a falsa. Quando alguém amplia seu auto-conhecimento através da Orientação do Din, conhece a moeda autêntica. Tudo o que a mentalidade materialista tem a oferecer são moedas falsas que não são o que parecem ser. Se fugirmos do auto-conhecimento permanecemos tolos. Continuaremos aceitando moedas falsas. Inquietações e angústias cuidadosamente “fabricadas” inspiradas em “necessidades imaginárias” que o sistema cultiva em nossa mente e em nosso coração continuarão fazendo com que sejamos e vivamos segundo expectativas falsas. E este é um caminho de infelicidade garantida nesta vida e na vida eterna.



Auto-Conhecimento para Autêntica Auto-Estima



Nada é mais verdadeiro em relação a auto-estima e o conseqüente auto-respeito do que o reconhecimento e a adoção do Din como diretriz para nossa vida. Primeiramente, é necessário nos tornarmos conscientes de que a autêntica auto-estima nada tem a ver com o que a mentalidade materialista nos oferece como “visão sobre nós mesmos”. Quando seguimos a mentalidade materialista nos convencemos que a nossa auto-estima deve se basear em “nos sentirmos superiores aos demais” e em colocarmos nossos interesses e ambições pessoais num pedestal e então “servirmos nossa vaidade”. Esta mentalidade irreligiosa nos condiciona a crença de que quanto mais adotemos estes princípios maior será a nossa auto-estima e que isto significa “amar a si próprio”. E, no entanto, tudo isto nada mais é do que “ruína” para a alma e para o coração humano. O fato é que quanto mais alguém deseja “superioridade sobre os demais” maior é a sua sensação de “pequenez” o que o leva a atitudes ignóbeis e indignas. Tanto mais alguém viva para prestar culto a sua vaidade pessoal, maior será sua incapacidade de encontrar satisfação e paz de espírito. Desde que seus interesses e ambições pessoais dirijam sua consciência é certo que praticará injustiças e traições. Em suma, mesmo que venha a iludir aos outros, jamais alcançará algo próximo de qualquer Auto-Estima. Será na melhor das hipóteses, um dos que enganaram-se a si próprios até acreditarem em suas próprias mentiras. Esse padrão de comportamento e esta mentalidade narcisista tornou-se dominante nos dias atuais. A sociedade moderna exalta como um Modelo Ideal de Vida o culto personalista, o culto ao corpo e as conquistas materiais.



As pessoas são levadas a crer que a Auto-Estima reside no “ter”, mas, não apenas no ‘ter’ mas também no “Ostentar”. Grande parte da indústria do entretenimento existe em função desse narcisismo febril. Artistas, modelos, homens e mulheres bem-sucedidas são consagrados como “ídolos a serem venerados e imitados”.



Curiosamente, quando atentamos para essas pessoas, para o que elas dizem e fazem, para suas expectativas e para o modo como vêem a vida percebemos que tudo nelas é “falso” sua suposta “felicidade” é movida pela satisfação da vaidade, o que requer destaque, notoriedade pública constante. Suas vidas são completamente vazias do mesmo modo que elas próprias são “vazias”. Na verdade estão condenados a representar eternamente a imagem que criaram de si próprias. Não passam de “ídolos de carne e osso” e como tal não mais possuem domínio sobre suas vidas.



Esse tipo de “amor-próprio” se assemelha a cocaína. Cedo ou tarde todo prazer que possa proporcionar termina em frustração e derrota. Não há um caminho para a autêntica auto-estima senão através do auto-conhecimento pela adoção das diretrizes de Allah. Nenhuma verdadeira auto-estima pode ser alcançada enquanto nos deixarmos iludir pela mentalidade materialista que nos faz confundir felicidade com “diversão”, amor com “tudo o que se possa comprar”. Não há nenhuma “auto-estima” no orgulho e na vaidade simplesmente porque “não se ama o que não se conhece”.



Palavras Finais



A ênfase dos preceitos do Din e os ensinamentos dos profetas e dos Imames está no direcionamento de nossa consciência ao aprendizado da humildade e da generosidade, na adoção de um modo de vida simples para que nosso coração e a nossa razão encontrem o necessário equilíbrio. Sobretudo, há a ênfase neste aprendizado lento e progressivo de compreender o significado de nossas vidas, que em outras palavras se trata do ampliar o nosso “auto-conhecimento”. O mundo atual representa imensos desafios neste caminho. Falsas expectativas e inquietações se interpõem entre cada um de nós e as diretrizes divinas do Islam.



Entretanto, aqueles que pela misericórdia de Allah adotaram esta Senda contam com um firme sustentáculo a seu alcance para superar esses obstáculos. O sagrado Alcorão e a Sunnah autêntica do Mensageiro (saas) e dos Imames de sua Casa (as) não estão distantes dos que crêem e se firmam. As sombras da ignorância e a Luz do auto-conhecimento não distam mais um do outro do que nossas próprias escolhas diárias. Vencer as inquietações e as angústias do mundo em que vivemos é um desafio menor do que vencermos nossas próprias apreensões relacionadas ao nosso excessivo amor à vida mundana e o nosso apego as nossas próprias paixões e caprichos. Por esta razão é tão necessária uma transformação de nossa consciência pela Fé e pela ampliação do auto-conhecimento.